sábado, 18 de julho de 2020

Lennon, Losurdo e a burocracia



Em alguns momentos dessa entrevista de janeiro de 1971 ao jornal trotskista "The Red Mole", o artista John Lennon se demonstrou mais materialista que os 'marxistas' que o entrevistaram:
JOHN LENNON: "Depois da revolução, você tem o problema de manter as coisas funcionando, de classificar todas as diferentes visões. É bastante natural que os revolucionários tenham soluções diferentes, que se dividam em grupos diferentes e depois reformem, essa é a dialética." - mas, ao mesmo tempo, precisam estar unidos contra o inimigo, para solidificar uma nova ordem. Não sei qual é a resposta; obviamente, Mao está ciente desse problema e mantém a bola em movimento ".

BLACKBURN:
"O perigo é que uma vez criado um estado revolucionário, uma nova burocracia conservadora tende a se formar ao seu redor. Esse perigo tende a aumentar se a revolução for isolada pelo imperialismo e houver escassez material".
 

JOHN LENNON: "Uma vez que o novo poder tenha assumido o controle, eles precisam estabelecer um novo status quo apenas para manter as fábricas e os trens funcionando".
 

BLACKBURN: "Sim, mas uma burocracia repressiva não necessariamente administra as fábricas ou trens melhor do que os trabalhadores poderiam sob um sistema de democracia revolucionária".
JOHN LENNON: "Sim, mas todos temos instintos burgueses dentro de nós, todos nos cansamos e sentimos a necessidade de relaxar um pouco. Como você mantém tudo funcionando e mantém o fervor revolucionário depois de alcançar o que se propunha a alcançar? É claro que Mao os manteve na China, mas o que acontece depois de Mao? Ele também usa um culto à personalidade. Talvez seja necessário; como eu disse, todo mundo parece precisar de uma figura paterna.
Curiosamente, a reflexão que John Lennon propõe a essa época, no trecho citado acima, muito se aproxima do que disse 9 meses antes de falecer o filósofo marxista italiano Domenico Losurdo, em debate sobre "A vida de Trotsky" organizado pela Editora Boitempo por ocasião do centenário da Revolução Russa. Vale a pena assistir na íntegra, mas destaco abaixo a parte a que me refiro (a partir da 1 hora, 13 minutos e 27 segundos do vídeo publicado no YouTube):



terça-feira, 27 de agosto de 2019

Deveríamos buscar lições com a China sobre a defesa da soberania nacional

Me decepciona a publicação pelo Intercept Brasil do artigo "As lições para o Brasil dos protestos de Hong Kong" ( https://theintercept.com/2019/08/19/revolta-do-guarda-chuva-hong-kong-protestos-china/ ), de Rosana Pinheiro-Machado. Um portal que tem se destacado por grandes contribuições ao jornalismo investigativo, revelando através de informações vazadas como agentes do Estado brasileiro agiram contra a Constituição, as leis e o desenvolvimento nacional, coloca em segundo plano as articulações do imperialismo norte-americano com os protestos de Hong Kong, que podem ser demonstradas citando documentos e fatos públicos, como fez Godfree Roberts no brilhante artigo "O cálice envenenado de Hong Kong: Quando civilizações se chocam" ( https://revistaopera.com.br/2019/08/05/o-calice-envenenado-de-hong-kong-quando-civilizacoes-se-chocam/ ).

Depois de discorrer sobre a criatividade, ousadia e capacidade de organização demonstradas pelos protestos de Hong Kong e mesmo reconhecer determinadas contradições dentro do movimento, a autora afirma:

"Na atual conjuntura, não acredito que o movimento, com todas suas contradições, penderá para a extrema direita imperialista."

Depois reafirma sua confiança citando as palavras que colheu de uma ativista de Hong Kong:

"nós, os que acreditam na democracia radical, justiça social no processo de autodeterminação de Hong Kong, somos a vasta maioria."

Há uma ingenuidade que a autora compartilha com "democratas" e "socialistas" de Hong Kong e que me lembra muito o documento "O Socialismo Petista", de 1990, no qual se afirmava sobre a Polônia: 

"O PT foi o primeiro  partido político brasileiro a apoiar a luta democrática do Solidariedade polonês, mesmo sem outras afinidades ideológicas.  Temos combatido os  atentados  à liberdade sindical, partidária, religiosa etc. nos países do chamado socialismo  real com a mesma  motivação com que lutamos pelas liberdades públicas no Brasil.  Denunciamos com idêntica indignação o assassinato premeditado de centenas de trabalhadores rurais  no Brasil e os crimes contra a humanidade cometidos em Bucareste ou na Praça da Paz Celestial. O socialismo, para o PT, ou será radicalmente democrático ou não será socialismo. Os movimentos que conduziram às reformas no Leste Europeu voltaram-se justamente contra o totalitarismo e a estagnação econômica, visando institucionalizar regimes democráticos e subverter a gestão burocrática e ultracentralizada da economia.  O desfecho desse processo está  em aberto e será a própria disputa política e social a definir os seus  contornos. Mas o PT  está convencido de que as mudanças ocorridas e ainda em curso nos países do chamado socialismo real têm um sentido histórico positivo, ainda que o processo esteja sendo hegemonizado por correntes reacionárias, favoráveis à regressão capitalista.  Tais movimentos devem ser valorizados, não porque representem em si um projeto renovador de socialismo, mas porque rompem com a paralisia política, recolocam em cena aberta os diversos agentes políticos e sociais, impulsionaram conquistas democráticas e, em perspectiva, podem abrir novas possibilidades para o socialismo. A energia  política liberada por  tamanha mobilização  social não será facilmente domesticada pelo receituário  do FMI ou pelos  paraísos abstratos da propaganda capitalista." ( https://www.enfpt.org.br/acervo/documentos-do-pt/encontros-nacionais/1990/O-socialismo-petista.pdf )

17 anos depois o PT reconheceria em novo documento com o mesmo título, "O Socialismo Petista", de 2007:

"A   partir   da   Polônia   iniciava-se   um   movimento  de contestação do socialismo burocrático, que se estenderia a todos os países   da   Europa   do   Leste,   atingindo   mais   tarde   a   própria   União Soviética. As chamadas "revoluções de veludo" no leste europeu e a posterior   dissolução   da   URSS,   não   propiciarem   uma   renovação democrática do socialismo, serviram de base para instauração de um   capitalismo   selvagem   que   atacou   duramente   as   conquistas sociais que os trabalhadores haviam anteriormente obtido naqueles países" ( https://fpabramo.org.br/csbh/wp-content/uploads/sites/3/2018/05/3-Congresso-nacional_Socialismo-Petista.pdf ).

E no entanto, mesmo constatando o quanto errou em sua aposta e o quão foram desastrosas as consequências trazidas pelo sucesso do movimento apoiado por eles na década anterior, o PT nada fez para impedir que o imperialismo coordenasse junto a agentes do Estado brasileiro investigações conduzidas de forma lesiva ao interesse nacional, que organizassem movimentos biônicos (MBL, Vem Pra Rua, etc.) e "think tanks" capazes de altos investimentos em difusão de informações falsas, desestabilizando a política e a economia do país e abrindo caminho para o ultra-liberalismo com feições fascistas que nos governa hoje.

Não se pode nunca subestimar a capacidade de o imperialismo atingir seus objetivos, muito menos quando para isto se conta com a espontaneidade de movimentos sociais sob influência de forças políticas obscuras financiadas a partir do exterior.

Temos muito mais a aprender com o Partido Comunista da China do que com o quarto da população que está nas ruas de Hong Kong. Afinal, a China sobreviveu à dissolução do socialismo no Leste Europeu e à avalanche neoliberal dos anos 1990, segue firme e forte na condução de seu Projeto Nacional de Desenvolvimento, construindo um socialismo autêntico, com características chinesas.

Os jovens de Hong Kong não contariam com tanta força nas ruas e simpatia internacional se determinadas organizações que operam nas redes sociais e na imprensa não estivessem obtendo financiamento externo. Mas quanto mais leio sobre as inconsistências e contradições dos que protestam em Hong Kong, mais tenho confiança de que a China vencerá mais uma vez, garantindo a integralidade de seu território e a soberania nacional. Infelizmente não tenho a mesma confiança no Brasil, dada a ingenuidade de nossa esquerda. Uma esquerda que se espelha nos "autonomistas" de Hong Kong sob influência direta do imperialismo norte-americano será incapaz de reverter nosso atual estado de coisas.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

A desonesta equiparação entre Marighela e a Ditadura


Para quem tenta colocar um sinal de igualdade entre a Ditadura Militar e as guerrilhas que a combateram, vejam o depoimento dado por Charles Elbrick, o embaixador dos EUA sequestrado pelos grupos MR8 e ALN (sendo esta a organização liderada por Marighella):

"Bom, daquele momento em diante eu fui tratado muito bem, devo dizer, que se um dia eu for sequestrado ou colocado na prisão, eu gostaria de ser tratado da maneira que eu fui tratado dali em diante. No dia seguinte eles foram muito agradáveis, atenciosos, eles tentaram fazer o que podiam para ver se eu estava confortável. Não era muito, mas eles tinham recursos limitados eu suponho."



Ele também relatou que recebeu revistas antigas e um livro em inglês sobre Ho Chi Min para ler, além de ter seu estoque de cigarrilhas sempre reposto e ter sido alimentado. Segundo Elbrick, a comida não era muito boa, mas os guerrilheiros se desculparam por não serem bons cozinheiros.

Quantos sindicalistas, estudantes, inclusive jovens mulheres, mães, foram submetidos às mais bárbaras torturas e estupros, muitas vezes até a morte e com ocultação de cadáveres? Por vezes as torturas envolviam crianças, como demonstram as reportagens de Luiz Carlos Azenha ( https://www.viomundo.com.br/denuncias/criancas-na-ditadura-militar-tortura-exilio-e-clandestinidade.html )

Colocar um sinal de igualdade entre os torturadores covardes e aqueles que arriscavam as vidas para pôr fim àquele regime odioso é um ato de má-fé.

O depoimento completo (em inglês) do embaixador pode ser lido no endereço http://media.folha.uol.com.br/agora/2015/07/09/document2015-07-08-193026.pdf

As estrelas no capitalismo

Toda vez que assisto a documentários e cinebiografias de intérpretes e músicos cujas obras alcançaram enorme sucesso comercial enquanto eram vivos e acabaram morrendo tragicamente, muitas vezes ainda jovens, fico pensando no quão pouco se questiona o quanto a indústria fonográfica e a mídia como um todo contribuíram para a tragédia. Penso que isso ocorre em parte porque esses documentários e cinebiografias, ao relançarem as obras póstumas, perpetuam não só a arte, mas o lucro das corporações que detêm direitos sobre ela.



Quando estão em ascensão, vende-se uma imagem gloriosa dessas estrelas, expõem-se a intimidade delas para o mundo, viram capas de revistas, fazem ensaios, filmes, dão entrevistas aos montes e participam de turnês exaustivas que acabam com a sanidade física e mental delas. Movimenta-se uma quantia enorme de dinheiro.

As relações pessoais desses artistas geralmente são muito afetadas por tudo isto, alguns familiares em que se confiava se revelam verdadeiros oportunistas, o tempo com filhos é comprometido pela agenda intensa de shows, etc.

Quando tudo isso se torna insustentável física e psicologicamente e as estrelas começam a entrar em depressão, a abusar do uso de álcool e outras drogas, etc. a industria fonográfica segue exigindo o sangue delas para o cumprimento de contratos e execução de shows - se não o fizerem têm que pagar multas e se contentarem com o que recebem por direito autoral, uma fração pequena frente ao que fica para as gravadoras. A mesma mídia que antes vendia uma imagem gloriosa dessas estrelas passa a vender a imagem de sua destruição. O foco passa a ser explorar os aspectos mais tristes, doentios e escandalosos do que se passa na vida pessoal da estrela, que há muito já não tem direito a privacidade.

Tudo isso me faz pensar também no velho argumento liberal de que é uma grande vantagem do capitalismo a possibilidade da ascensão social pelo esforço e pela manifestação dos diferentes talentos. Mas será que é preciso se chegar a tanto? Será que tanto dinheiro tem que ser movimentado em torno da ultra-exploração da imagem desses artistas, que muitas vezes começam muito jovens, adolescentes, crianças, a lidarem com esse mundo? Não seria melhor uma sociedade na qual os talentos pudessem se desenvolver e se projetar num ambiente mais saudável, valorizando-se o trabalho do artista sem precisar submetê-lo a tanta exposição?

E enquanto essas estrelas têm suas vidas consumidas de forma tão intensa, quantos outros milhares de artistas lutam para ter a possibilidade de viver de sua arte mas não encontram espaço?

Questionamentos semelhantes podem ser feitos  sobre expoentes de outras áreas, como o esporte e o cinema.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sobre os fundamentos jurídicos das condenações ao PT



Desde a Ação Penal 470 (vulgo Mensalão), quando Rosa Weber (assessorada por Sérgio Moro) admitiu que estava condenando José Dirceu sem provas, porque a literatura jurídica a permitia; passando pelo impeachment de Dilma, em que senadores a depuseram por um suposto crime, mas não cassaram seus direitos políticos, por ela não ter cometido crime algum; até a negação do Habeas Corpus a Lula, em julgamento no qual um "sentimento social" foi invocado por Luís Roberto Barroso; uma característica peculiar tem marcado a cruzada contra lideranças do PT a que o país tem assistido. Os juristas citados para embasar as condenações têm contestado fortemente a interpretação de suas teorias.

Cláus Roxin, Luigi Ferrajoli, Lenio Luiz Streck, Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira, Alexandre Gustavo Melo Franco de Moraes Bahia, Alamiro Velludo Netto, Antônio Escrivão Filho e José Geraldo de Sousa Júnior: além de serem juristas reconhecidos, alguns renomados mundialmente, todos serviram de referência para sustentar condenações de lideranças do PT por juízes e parlamentares brasileiros nos últimos anos; e todos eles argumentaram em seguida que suas teses foram mal interpretadas e aplicadas erroneamente.

Confira:

Criador da 'Teoria do Domínio do Fato' repreende ministros do STF por mau uso

(...) ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) citaram a teoria do ‘domínio do fato’ do jurista alemão Claus Roxin, 81. Conforme a teoria, o autor não é só quem executa o crime, mas quem tem o poder de decidir sua realização e faz o planejamento estratégico para que ele aconteça. Esse foi um dos fundamentos usados por Joaquim Barbosa na condenação do ex-ministro José Dirceu. Roxin, porém, enfatizou que essa decisão precisa ser provada e que indícios não são suficientes para uma condenação.

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/11/criador-da-teoria-dominio-fato-repreende-ministros-stf-por-mau-uso.html

Autores que embasam relatório a favor do impeachment dizem que processo é inconstitucional

Juristas citados pelo relator do processo no Senado Federal, do senador Antonio Anastasia (PSDB), para embasar e confirmar a legalidade do impeachment, dizem que o relator Anastasia interpretou o texto indevidamente e que o processo de impeachment é inconstitucional.

http://cartacampinas.com.br/2016/05/inconstitucional-autores-que-embasam-relatorio-a-favor-do-impeachment-dizem-que-processo-e-insconstitucional/

Luigi Ferrajoli, jurista de reputação mundial, condena abusos da Lava Jato

Luigi Ferrajoli é um dos teóricos citados com bastante frequência pelos Procuradores da República e pelo Juiz Federal Sérgio Moro nos processos da Operação Lava Jato. No entanto, apesar da deferência atribuída a ele, isso não obstou duras críticas às violações cometidas no processo – “podemos notar singulares violações, como a difusão e a publicação das interceptações promovidas pelo próprio juiz instrutor e traços típicos de impedimento. (…) Esta confusão entre acusação e justiça é o primeiro traço do impedimento [de Moro]. O andamento de mão única do processo, que não tem parte contraditória e possui apenas uma pessoa que acusa e julga”.

http://justificando.cartacapital.com.br/2017/04/19/luigi-ferrajoli-jurista-de-reputacao-mundial-condena-abusos-da-lava-jato-em-palestra/

Citado por Gebran no TRF-4, jurista diz que seu texto foi "totalmente descontextualizado"

Alamiro Velludo Netto, professor Doutor de direito da USP citado por Gebran, publicou em suas redes sociais o seguinte comentário após o voto do desembargador: “O pior de tudo é ser citado no voto por meio de um texto meu totalmente descontextualizado”. No texto, o professor discorre sobre o julgamento do mensalão, em que não foi apontado ato de ofício preciso dos condenados – como ocorre no caso de Lula. Ele, no entanto, é um crítico e acredita que a lei não permite que não seja identificado ato que vincule o acusado à benesse recebida.

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/01/citado-por-gebran-no-trf-4-jurista-diz-que-seu-texto-foi-totalmente-descontextualizado.html

Juristas citados por Fachin no julgamento de Lula contestam argumentos do ministro

Os juristas Antônio Escrivão Filho e José Geraldo de Sousa Júnior criticaram a citação feita pelo relator do julgamento do habeas corpus (HC) do ex-presidente Lula no STF, Edson Fachin, ao livro de sua autoria Para um debate teórico-conceitual e político sobre os direitos humanos.

https://www.brasildefato.com.br/2018/04/04/juristas-citados-por-fachin-no-julgamento-de-lula-contestam-argumentos-do-ministro/

Acrescente-se à lista o grande jurista brasileiro Afrânio Jardim, admirado por Sérgio Moro a ponto de o mesmo ter lhe dedicado texto como tributo. Inicialmente apoiador da Lava Jato, tendo trocado correspondências com Moro sobre aspectos jurídicos da operação, Jardim se tornou um contundente crítico dos métodos adotados pelo juiz de Curitiba e pelo Ministério Público Federal.

Lava Jato: criticada por um ex-aliado de Sergio Moro e alvo de contraofensiva de políticos

Há pouco mais de dois anos, Jardim começou a trocar impressões com o juiz Sergio Moro, o responsável pela operação na primeira instância. Apoiava seus atos. Elogiava a importância das apurações. Mas as últimas ações da força-tarefa fizeram com que ele rompesse com o magistrado e se tornasse um dos principais críticos dos trabalhos que estão sendo conduzidos em Curitiba. Não porque Jardim seja contrário ao combate à corrupção, mas por entender que boa parte do que tem sido feito não respeita as normas. Cita, por exemplo, a condução coercitiva de investigados, a prisão domiciliar de grandes empresários, a divulgação da gravação envolvendo os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, (...). “Não é justo o que estão fazendo”, sintetizou o especialista em conversa com o EL PAÍS por telefone.

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/17/politica/1474066251_908067.html

Jurista pede para retirar artigo de Moro em livro feito em sua homenagem

"(...) restou ‘esfarrapado’ o nosso sistema processual penal acusatório, que venho procurando defender nestes trinta e sete anos de magistério. O juiz Sérgio Moro me deixou triste e decepcionado com tudo isso."

http://justificando.cartacapital.com.br/2017/05/11/jurista-pede-para-retirar-artigo-de-moro-em-livro-feito-em-sua-homenagem/

domingo, 21 de maio de 2017

PSTU e CONIC - Diretas Já ou Eleições Gerais?

A defesa de eleições gerais pelo PSTU está assumidamente ligada à negação de que houve um Golpe de Estado no processo de impeachment de Dilma. http://www.pstu.org.br/%e2%80%9cdiretas-ja%e2%80%9d-do-pt-ou-%e2%80%9celeicoes-gerais%e2%80%9d-qual-a-diferenca/

Assim, o PSTU confirma que foi e permanece favorável ao afastamento da Presidenta. O impeachment fraudulento colocou Temer à frente do Executivo e o PSDB, DEM e PPS em pastas ministeriais por mais de um ano. Além de fazer avançar uma agenda de reformas extremamente regressiva, isto já resultou no congelamento dos gastos em Educação, Saúde e Segurança Pública por duas décadas e na possibilidade de qualquer atividade ser terceirizada, precarizando as relações de trabalho. O PSTU não faz autocrítica alguma quanto a isto. Pelo contrário, considera a saída de Dilma como algo positivo.

Na verdade, a linha de pensamento do PSTU propõe a divisão e o isolamento da esquerda. Afirma que a palavra de ordem "Diretas Já" seria algo "do PT". Nessa análise sem rastro na realidade, o PSTU desconsidera que outros partidos (PCdoB, PSOL, PSB, Rede) reivindicam Diretas Já e que o PT sequer foi o primeiro partido a trazer essa proposta como solução para a crise política em que o país mergulhou desde 2014.

Falemos de um exemplo (bem) melhor.

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) reconhece que houve um Golpe contra Dilma, convoca as Diretas Já para a Presidência da República, mas também quer eleições gerais para o Senado e a Câmara Federal... http://www.conic.org.br/portal/noticias/2236-declaracao-do-conic-sobre-o-atual-momento-politico-do-brasil

Bastante positivo que católicos, luteranos, anglicanos e metodistas se unam à causa das Diretas. Até religiosos são menos dogmáticos que trotskistas! De toda forma, ainda me preocupa a falta de foco.

Tem muita gente por aí achando que renovar Presidência, Câmara e Senado ainda é pouco e quer que haja novas eleições para governos estaduais, assembleias legislativas, prefeituras e câmaras de vereadores.

O PSTU ficou indeciso quanto à medida da ambição. Fala em Presidência, Congresso, Governadores e emenda com um "etc.".

Chama a atenção tanto no caso do PSTU quanto no caso da CONIC a completa falta de esclarecimento sobre que poderes seriam os garantidores da democracia em meio a esse "apocalipse" político. Quem dissolveria os governos e parlamentos e conduziria o país?

O PSTU provavelmente alimenta fantasias sobre a possibilidade de "conselhos populares" tomarem o poder e garantirem as eleições. Não vai admitir que na verdade sua proposta de uma esquerda "autêntica" e alheia a articulações políticas mais amplas dialoga mesmo é com o fascismo.

Se falta uma proposta concreta às Igrejas e à extrema-esquerda, à extrema-direita não falta. Fascistas que querem uma intervenção militar (supostamente) constitucional vem ventilando (com boatos, áudios falsos e interpretações distorcidas da Carta Magna) que o STF e as Forças Armadas poderiam exercer o papel de dissolver parlamentos e governos, para depois convocar eleições gerais.

Aos setores populares, progressistas e de esquerda que não usam viseiras, mas ainda assim simpatizam com a ideia de eleições gerais: é preciso encarar que as condições não são favoráveis sequer para a realização de eleições diretas para a Presidência. Isto por si só será muito difícil e exige que nos articulemos a amplos setores, inclusive a partidos e parlamentares que exercem mandatos no Congresso (e que não abrirão mão deles).

O motivo pelo qual precisamos de eleições diretas para a Presidência é que qualquer outra saída mantém o povo excluído da solução da crise e culmina na continuidade da agenda das reformas/demolições trabalhista e previdenciária. Os deputados e senadores em exercício foram eleitos, gostemos ou não. O caso de Temer é diferente, pois ele usurpou o poder em um ato de traição e está aplicando um programa que ninguém teria coragem de defender em uma campanha eleitoral. As classes dominantes e seus partidos, se não conseguirem manter Temer no poder, vão fazer de tudo para que sua saída seja seguida por eleições indiretas, muito mais fáceis de serem controladas.

Devemos sobretudo ter cuidado com a confusão que o inimigo tenta plantar entre nós, nos dividindo, ventilando ideias absurdas sobre a possibilidade de o Judiciário e as Forças Armadas extrapolarem suas funções constitucionais e usurparem o poder político. Os golpistas tentam nos convencer de que esta seria uma medida temporária e que logo mais a normalidade democrática seria restaurada. Pois é exatamente nisto o que a UDN de Carlos Lacerda acreditava em 1964. Ele incitou ao máximo as Forças Armadas para que destituíssem João Goulart, acreditando que logo haveria novas eleições. A Ditadura durou 21 anos, partidos e mandatos foram cassados, o próprio Carlos Lacerda se tornou exilado político e barbaridades foram cometidas contra o povo e seus lutadores.

É preciso aprender com a história para não repetirmos erros.

terça-feira, 4 de abril de 2017

The Propaganda Game: um documentário honestamente ambíguo


Os espanhóis Álvaro Longoria e Alejandro Cao de Benós

Já assisti a vários documentários sobre a Coreia do Norte gravados por ocidentais. Devo dizer que The Propaganda Game (disponível no Netflix: https://www.netflix.com/title/80085020) está acima da média. Na maioria das vezes os visitantes com câmeras não vão ao país para conhecê-lo e revelá-lo, mas sim para combater o que ele representa: goste-se ou não, a Coreia Popular é um dos poucos países que não aceitou se submeter à ordem mundial estabelecida pela hegemonia norte-americana. Pela soberania nacional, seu povo pagou e paga um altíssimo preço! Para mim (ao contrário do que o senso comum estabelece), há algo de muito LIBERTÁRIO no fato de a Coreia Popular se manter de pé! Mal os coreanos se livraram dos colonizadores japoneses (que faziam das mulheres coreanas escravas sexuais), toneladas de bombas norte-americanas foram lançadas sobre Pyongyang, reduzindo-a a escombros. Valia tudo para impedir a consolidação de uma república independente! Por muito pouco não lançaram a bomba atômica! Pyongyang renasceu das cinzas como Fênix, é uma cidade magnífica, limpa, cheia de moradias e áreas de lazer! Comparem com a Seul capitalista e suas favelas, metrôs ocupados por mendigos e sem-tetos! É lugar comum reclamar da dependência norte-coreana em relação à China e à União Soviética, mas não há bases militares estrangeiras (nem chinesas, nem russas) na Coreia Popular. Já a Coreia do Sul (assim como o Japão) é um país ocupado por dezenas de milhares de soldados norte-americanos, com suas bases e ogivas nucleares, cuja detonação é decidida do outro lado do Oceano. Quem é livre, afinal?

Voltando à premissa inicial: geralmente as gravações sobre a Coreia do Norte são apresentadas em edições nas quais aparecem apenas opiniões hostis ao país, de ocidentais carregados de preconceito e arrogância. Algumas dessas criaturas burguesas opinam nesse documentário, mas o diretor espanhol Álvaro Longoria teve o mérito de dar algum espaço para que os próprios norte-coreanos falassem. As filmagens mostram o dia a dia deles, um povo cheio de cor, tradições, brincadeiras... o vídeo foi construído estabelecendo ambiguidades, que nem todos percebem. A crítica à "propaganda" de forma alguma se limita à ideologia ensinada, cultivada e defendida em armas na Coreia do Norte. Há questionamentos também sobre a propaganda midiática que se faz do país mundo afora.


Algumas das estórias fantásticas inventadas contra a Coreia do Norte são desmentidas no próprio documentário. Outras ficaram sem o devido contraponto. Por exemplo, os norte-coreanos nunca reivindicaram terem encontrado um unicórnio de verdade, como sugeriram determinados "jornalistas" de grandes corporações midiáticas. O que foi descoberto por arqueólogos coreanos é um local chamado Covil do Unicórnio (http://solidariedadecoreiapopular.blogspot.com.br/2012/12/folha-de-sao-paulo-mente-sobre-coreia.html).

Alguns questionamentos que o diretor faz na edição do vídeo poderiam ter sido esclarecidos através de perguntas aos entrevistados. Por exemplo, sobre a animação Coração Valente estar sendo exibida na TV de um apartamento. Filmes americanos são mesmo determinantemente proibidos na Coreia do Norte? Acredito que haja restrições econômicas (nesse caso, mais de fora para dentro, via embargo) e mesmo políticas. Possivelmente alguém trouxe uma cópia da China. Mas eu já vi dançarinos caracterizados de personagens da Disney se apresentando em palco para norte-coreanos, enquanto cenas de animações clássicas eram exibidas no telão  (https://www.youtube.com/watch?v=sRUpuPVKip0). O próprio Kim Jong-un estava na plateia.

Outros questionamentos foram um tanto estúpidos, como desconfiar de uma mulher não querer mostrar o que tem na geladeira para o mundo inteiro, ou achar estranho que coreanos cristãos cantem "tão bem" (se no próprio documentário foi registrado que coreanos aprendem a cantar, tocar instrumentos, dançar, etc. desde pequenos).



Enfim, há muito mais o que se saber sobre a Coreia Popular, mais do que é possível em uma única visita, com roteiro preestabelecido e acompanhamento de guias. Mas os "espertos" deveriam lembrar antes de criticar que armistício não é tratado de paz e que a Coreia do Norte ainda se encontra em guerra, não simplesmente contra um vizinho, mas contra aquela que o ocupa, a maior potência econômica e militar do planeta.

Não dá mais para achar que é mera "teoria da conspiração" acusar a inteligência norte-americana de praticar atos de espionagem, sabotagem, assassinatos políticos, golpes de estado, etc. Não com tantos documentos revelados pela própria CIA e com os vazamentos de Assange e Snowden. Essas coisas existem, não são "paranoia". Os norte-coreanos poderiam abrir mão de suas regras rígidas sobre entrada de estrangeiros, de seu militarismo e de seu poderio nuclear dissuasivo. Terminariam como Iraque e Líbia. Felizmente não estão tentados a permitirem essa barbaridade! Uma pergunta para os que repetem como papagaios que a Coreia do Norte é uma ameaça à paz mundial: qual foi o único país do mundo a utilizar a bomba atômica contra pessoas? Uma estrelinha vermelha para quem acertar! Será que aqueles que têm que se retratar e se retirar não são na verdade os norte-americanos, para que os próprios asiáticos negociem os termos de paz entre eles? Ou devemos acreditar como racistas e colonizadores que esses povos precisam ser tutelados por gringos arrogantes?

Menina coreana pergunta se na Espanha as crianças também são amadas

Quanto ao outro espanhol, o comunista  Alejandro Cao de Benós, que optou por viver e servir à Coreia Popular: admiro sua tenacidade, mas considero algumas de suas ideias excessivamente românticas, como criticar as reformas de China e Vietnã (que longe de acabarem com o socialismo em ambos os países, o tornaram mais longevo) e idealizar que a Coreia do Norte se destaca por repudiar formas de organização da produção pelo mercado. O socialismo como transição do capitalismo ao comunismo pode sim comportar diversas formas de organização da produção, desde que subalternas à economia planificada, principalmente nos estágios em que as tecnologias mais avançadas forem monopólio das potências capitalistas. O recente Socialismo de Mercado chinês guarda muitas semelhanças com a Nova Economia Política proposta e executada por Lênin. Seria Lênin um traidor na concepção de Alejandro?

A própria Coreia do Norte tem promovido empreendimentos em comum com a Coreia do Sul capitalista. Laboratórios importantes para um projeto de reunificação nacional sob dois sistemas, como já foi proposto por presidentes dos dois países em encontros na década de 2000. Se os propósitos estabelecidos nas declarações conjuntas entre Norte e Sul (https://en.wikipedia.org/wiki/June_15th_North%E2%80%93South_Joint_Declaration e http://www.ncnk.org/resources/publications/North-South%20Declaration.doc/file_view) não foram alcançados, isto não se deve aos norte-coreanos, mas sim à influência imperialista e anticomunista dos EUA sobre a política sul-coreana. A tão aclamada "alternância de poder" no Sul levou ao abandono da "Sunshine Policy" defendida por Kim Dae-jung e Roh Moo-hyun. Não me admira que os representantes da burguesia ocidental opinem ao final do documentário que a reunificação não interessa a ninguém, e que se ocorresse seria necessariamente uma absorção do Norte pelo Sul, prevalecendo os interesses dos EUA. A reunificação interessa sim, aos próprios coreanos, que deveriam a promover sem ingerência estrangeira alguma! Mas a retirada das bases militares norte-americanas da Coreia do Sul e do Japão não parece ser uma causa humanitária, pelo menos não para certos ongueiros e intelectuais conservadores.



Termino com algumas indicações aos interessados em aprender mais sobre a Coreia Popular.

São os três documentários gravados pelo britânico Daniel Gordon:

A State Of Mind - https://www.youtube.com/watch?v=_Nd-iSCy1og
Crossing The Line - https://www.youtube.com/watch?v=wxQeVBndv3U
The Game Of Their Lives - https://www.youtube.com/watch?v=rG-ivV-ps50

E estes dois episódios do programa canadense Departures:

Departures - s03e12 - North Korea The Other Side - http://www.dailymotion.com/video/x36ibbx_departures-s03e12-north-korea-the-other-side_webcam
Departures S03E13 North Korea The Musical Documental - http://www.dailymotion.com/video/x4dxzw6